Morte

No século passado, em algum ponto indeterminado, dentro do território americano, vamos encontrar oito homens aprisionados numa estreita cela. Sete deles estavam apreensivos e evidenciavam sinais de medo e perturbação. O oitavo homem parecia menos apreensivo e apresentava até mesmo uma certa quietude e tranquilidade.

Todos eles estavam há apenas duas horas de um dos mais importantes eventos de suas vidas, talvez o mais importante: seriam executados na cadeira elétrica. A diferença no comportamento de um deles, notadamente, chamou a atenção de um outro homem – que não era detento – e que resolveu entrevista-lo. Saber dele o porquê daquela aparente tranquilidade.

O entrevistador chamava-se Napoleão Hill, jornalista e escritor. Ao perguntar ao condenado como se sentia sabendo que em pouco tempo estaria a caminho da eternidade, com um sorriso confiante ele respondeu: “Muito bem. Em breve, não terei mais problemas. E problema foi o que mais tive na vida. Foi duro arranjar roupa e comida. Daqui a pouco não vou mais precisar disso. Eu me acalmei assim que tive certeza de que iria morrer. Eu me preparei mentalmente para aceitar meu destino”.

O mesmo Napoleão Hill havia classificado em seis, os medos básicos do homem:
• Medo da pobreza
• Medo de críticas
• Medo de doenças
• Medo de perder o amor de alguém
• Medo da velhice
• Medo da Morte (este tido como o pior dos medos)

LutoA questão morte é tão interessante que na verdade todos a evitamos. Não gostamos de falar a respeito – de forma a buscar entendimento – e falamos apenas de forma superficial, sem realmente uma reflexão sincera e profunda a respeito deste importante evento na vida e também, podemos dizer “da vida”, de todos nós.

Já Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos coloca essa questão em pauta (941) ao questionar os Espíritos sobre o porquê da perplexidade de muitas pessoas a respeito da morte. Eis que eles respondem não haver fundamento para tanto, exceto pelo fato de que desde pequenos somos condicionados a acreditar em céu e inferno, sendo que as maiores possibilidades são da ida para o inferno eterno e escaldante. Além disso, tudo o que a natureza nos oferece e a própria natureza humana é visto como pecado (sexo por exemplo, nudez, etc.). Daí o temor que todos desenvolvemos em torno do desencarne (morte).

Por fim ocorre que ou nos tornamos ateus, ou apegados demais à matéria, com desconsideração total pelo espiritual, e dessa forma nos condicionamos a sermos homens e mulheres carnais, segundo os apontamentos do próprio Kardec, ao analisar a resposta dos espíritos, na questão 941. Já o homem moral (ou a mulher moral) desfruta em plena vida, prazeres diferentes dos proporcionados pelas sensações corpóreas, por exemplo, vive e morre numa condição mais serena.

O homem condenado à morte na cadeira elétrica, provavelmente não tinha nenhum conhecimento espírita, porém a sua atitude diante do inevitável pode nos servir de parâmetro para os medos que desenvolvemos diante daquilo que muitas vezes não encontramos solução. Resignação seria a palavra correta para caracterizar a atitude do mesmo. E é a resignação que devemos praticar diante dos eventos mais obtusos em nossa vida, do ponto de vista da adversidade.
Temer a morte ou ignorá-la não nos fará menos sofredores diante das circunstâncias inevitáveis da sua presença em algum ponto de nossa caminhada. Mas sim, viver de forma a não nos aprisionarmos tanto no materialismo e na busca somente dos prazeres efêmeros e passageiros, os gozos da matéria propriamente ditos.

Ao nos tornarmos homens e mulheres morais – conceito de Kardec – sofremos menos as influências externas e, portanto, no limiar da experiência reencarnatória, estaremos mais preparados para a continuidade da vida, em plano diferente deste o qual experimentamos no momento. As graves sensações, perturbações e o difícil desprendimento dos laços que prendem nosso períspirito ao corpo físico, ocorrem comumente naqueles que viveram uma vida intensamente voltada única e exclusivamente para o material, conforme descreve um outro escritor, filósofo e contemporâneo de Kardec, Léon Denis, na sua obra Depois da Morte.

Denis esclarece que para aquele que busca viver em equilíbrio, ou seja, busca não só os prazeres da vida material (o que é natural e necessário ao nosso conforto), mas muito mais, também, os da vida espiritual, o desprendimento será mais fácil e as perturbações mais rápidas, no momento do desencarne. Acrescenta ainda que o conhecimento do futuro espiritual e o estudo das leis, são de grande importância como preparativos para o momento da morte.
Evidentemente que todos temos ainda muito intensamente dentro de nós, o instinto de sobrevivência, que faz com que tenhamos um certo apego (natural) ao corpo físico e à vida corporal. Faz todo o sentido desde que não venhamos a sofrer com isso. O instinto natural nos protege ao aguçar nossas defesas diante de um momento de perigo, por exemplo e é preciso que assim seja, pois, a vida é por demais importante.

LutoDiante, porém do inevitável – caso do condenado – a serenidade e a resignação serão importantes aliados para amenizar os sentimentos íntimos de perda, de derrota, de despedida de tudo e de todos, os quais fizeram parte da nossa jornada. Aí vemos também a alusão de Kardec sobre o homem justo (que neste caso não se aplica ao condenado, mas tão somente aquele que se pautou pelo respeitos às leis dos homens e as de Deus), que tem fé na vida futura e por isso sente-se seguro, principalmente se praticou a caridade para com os demais, pois isso servirá como proteção e intercessão a seu favor ao se deparar no outro lado da vida.

Sob o ponto de vista psicológico, a inconformidade com a morte física, se deve ao nosso ego, que nos impulsiona na direção dos próprios interesses, na busca de prazer a qualquer custo, no caminho das facilidades terrestres e a despreocupação com a felicidade real, aquela que brota da paz de espírito, alcançada tão somente pelas ações dignas e benfazejas, principalmente quando em prol dos demais ou de algo maior que si.
Vida e morte biológicas não são extremos da existência, segundo Joanna De Ângelis, mas estágios de condensação e desagregação da matéria, fenômenos transitórios da vida integral. O apego ao físico deve unicamente servir para agirmos no bem, termos presença e sentimento de vida.
Existe ainda a vida biológica não-percebida, onde ocorre um turbilhão de fenômenos – automáticos – inconscientes – dirigidos – conscientes -, pelos neurônios e diversos sistemas nervosos que preservam a funcionalidade da máquina física.

Pudéssemos analisar os eventos ocultos aos nossos olhos, dentro de nosso corpo físico, especialmente nas áreas cerebrais, e teríamos um verdadeiro show da vida, plena, abundante, extremamente ativa, a trabalhar em prol e em torno do nosso bem-estar, da nossa felicidade. Mecanismos complexos, elaborados para realizar ações que correspondem aos nossos anseios mais íntimos e que nos protegem dos ataques externos, mas que por serem estritamente subordinados à nossa vontade, muitas vezes acabam por nos destruir aos poucos, justamente em razão daquilo que semeamos em nossa mente e em nosso coração.
Ao sofrermos por antecipação ou por aquilo que desconhecemos, elegendo o medo como emoção maior a ser alimentada, acionamos mecanismos de autodefesa que irão produzir hormônios e outras substâncias químicas em abundância para tentar fazer frente ao “pseudoataques”, criados por nós mesmos.

Precisamos ressaltar então a importância da fé em Deus e no Cristo, pois se há coisas que dependem tão somente das nossas ações, outras há que estão além da nossa alçada, cabendo-nos confiar na proteção divina, principalmente daqueles que nos assistem do lado de lá, desta vida corpórea, os nossos protetores e mentores espirituais.
“… enquanto conversava comigo, ele devorava uma refeição em quantidade suficiente para três pessoas e parecia gostar, como se não estivesse à beira de um desastre. A decisão deu aquele homem, resignação. A decisão pode evitar a ocorrência de circunstâncias não desejadas”. – Napoleão Hill

Muita Paz!

 

Nota:

Título: letra da música Fita Amarela, (1933) do sambista e compositor Noel Rosa.

 

Referências Bibliográficas:.

HILL, NAPOLEÃO – Quem Pensa Enriquece, 2009 – Ed. Fundamento

KARDEC, ALLAN – O Livro dos Espíritos, Parte IV, Cap. I

DENIS, LEÓN – Depois da Morte, Cap. XXX

FRANCO, DIVALDO – Encontros com Paz e Saúde, Item 11 – pelo Espírito Joanna De Ângelis

♫ QUANDO EU MORRER… NÃO QUERO CHORO NEM VELA ♫

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